sábado, 12 de dezembro de 2009

21. O crescimento do relacionamento dos filhos e da descendência no desafio final

Para a “Mãe, Avó e Bisa”

Querida Mamãe,

Parece mentira… Um ano se passou desde que V. se foi. Sabíamos que estava muito difícil continuar nesse mundo, mas nunca achávamos que era a hora.

Hoje é como se V. tivesse acabado de ir e gostaríamos que não tivesse ido ainda. A dor continua, com a permanência das dores primais. Nem o tempo cura completamente.

Gosto de pensar que V. renasce em cada novo ser que perpetua a sua “querida descendência”. Por exemplo, nesse novo ano que V. não verá com os olhos do corpo, dois novos ramos da sua árvore brotarão, e os seus genes e o seu legado se renovarão e se afirmarão neles. A herança do seu corpo e da sua alma está viva e continua sua trajetória na terra.



Raízes e frutos.



V. não morreu, Mamãe, V. continua conosco.

Com muito amor, no aniversário de sua partida.
De sua filha querida,
Deolinda

terça-feira, 10 de novembro de 2009

1.As origens e a decendência: seus bisavós, avós, pais, filhos, netos e bisneto

O tempo passa...

Há 60 anos... imaginem a expectativa da mãe! Ela recordava que a felicidade e o amor tomaram conta da vida deles. Esta recepção delicada, abençoada e carinhosa nutriu meu ser com o bem. Agora, recém começo a compreender, e a colher os frutos...

Nessas 6 décadas, fases se sucederam... expectativas, vitórias, frustrações, experiências... Nas dificuldades, com sua determinação e otimismo, esteve sempre presente com parceria, amizade, e me comovem quando recordo...

Recordando cada fase com ela – em décadas: a primeira – o cuidado, a oração, a determinação na fixação de limites; a segunda década – a severidade, com uma boa dose de incentivo; a terceira – a perda do pai, o estudo, a leitura, a observação; a quarta década – a política, a desilusão com alguns valores espirituais, a busca de novos caminhos, o poder da mente, a espiritualidade direta com Deus; a quinta – o amadurecimento, a auto-observação; e na última década – volto a viver com ela, o acolhimento, a motivação de me ver no meio acadêmico, e a minha retribuição, quando cuidei e busquei diminuir seu sofrimento, mitigando tudo o que lhe ia faltando, até sua morte.

Em minhas reflexões eu percebo que ela soube fazer sua vida, soube superar dificuldades, soube ser sóbria, me ensinou a não desperdiçar.

Eu a guardo no coração, com carinho, respeito, agradecimento e louvor!

Nesta data, 10 de novembro de 2009, ao completar 60 anos, quero reverenciá-la com um presente singelo, virtual, e que certamente, a encantaria: o vídeo do aniversário de 90 anos de seu primo-irmão mais velho, o Batista. Para acessá-lo clique aqui: http://www.youtube.com/watch?v=lksAMY2AshE Se não tiver êxito ao clicar, então selecione o endereço e coloque em seu buscador da internet.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

16. Seus hobbies, gostos e hábitos

Oi, meus queridos!

A Mãe gostava muito de escrever cartas, especialmente aos filhos. E eu adorava recebê-las. Sei que ela vibrava com a chegada de uma cartinha.

Primeiro eram cartas escritas a mão e mandadas pelo correio convencional. Aqui para o Uruguai demoravam dias; às vezes, semanas.
Depois que nossa mãe virou internauta (acho que aconteceu em 2000), trocávamos e-mails quase diariamente.
Mais tarde veio o skype e a comunicação ficou mais fácil ainda.

Mas as cartas no papel guardam a sua letra - e muito mais que isto. De repente, estou procurando algo em uma gaveta e me deparo com uma delas; o passado volta, então, carregado de emoções.
Esta que estou postando agora foi sua última carta de próprio punho que recebi. Aqui a coloco para ilustrar a postagem anterior feita pela Deo e respectivos comentários. E para recordar o seu espírito otimista. E para quem não a conheceu ter esta oportunidade. E para matar um pouquinho as saudades... lá se vão 9 meses de ausência física.





E eu também já vou parando por aqui. Um beijão muito saudoso da sua filha
Lucy

sábado, 25 de julho de 2009

23. Álbum fotográfico, um dos seus hobbies

A Rainha da Inglaterra

Querida mamãe,
Mais de 7 meses se passaram desde que você se foi. A dor da sua ausência agora é um pano de fundo carregado de saudade que passou a fazer parte das nossas vidas. Revendo álbuns de fotos, revivo momentos de plenitude existencial.

Como, por exemplo, quando V. completou seus gloriosos 80 anos em 2002. Celebramos com um jantar no Terraço Itália em São Paulo, de onde a vista privilegiada da cidade a maravilhava.




Nas palavras do Remo, você estava exultante como a “Rainha da Inglaterra”.

















...Ou quando você viu neve pela primeira vez aos 83 anos!






E ria com a filha ao reviver a experiência, como uma criança feliz.

Depois, Vovó Internética, contou sua experiência para a descendência via skype.

Que saudade! Que bom que compartilhamos tantos momentos felizes!
De sua filha, com amor, Deo

sexta-feira, 12 de junho de 2009

23. Álbum fotográfico, um dos seus hobbies



"A foto saiu boa, me gostei!"


A foto ao lado foi a última que tirei dela quando ainda gozava de boa saúde. Estávamos nos despedindo de 2006. Quando lhe mandei dita foto por e-mail, ela respondeu comentando "A foto saiu boa, me gostei! Aliás, todos estão muito bonitos!!!". E tinha razão, está esplêndida!

A Mãe gostava muito de fotos. Sempre caprichava na produção e na pose, pois "ficariam para a posteridade".
Adorava ganhar fotos dos filhos, netos, parentes em geral e de amigos.
De ocasiões especiais como Formatura ou Casamento, não sossegava enquanto não recebesse sua cópia.
Tinha vários álbuns, com fotos cuidadosamente escolhidas. Adorava exibi-los aos parentes e amigos.

Tinha também um bauzinho de fotos, as mais variadas; algumas muito antigas, que nem mesmo ela conseguia identificar o antepassado. Costumava reclamar "Por que as pessoas não escrevem atrás da foto? O tempo passa e a gente não pode saber quem são."
Pensando nisso, há alguns anos ela escolheu esta bela foto e distribuiu cópias aos filhos.




Observem o verso da foto que recebi.







Esta não se perderá no tempo!



sábado, 9 de maio de 2009

3. Juventude e Casamento: o "Amore Mio"

Hoje, às vésperas do Dia das Mães, conto como começou a aventura existencial que levou Maria Zilda a ser mãe dos seus 4 filhos, que lhe deram 9 netos, que já lhe deram 1 bisneto.

Ela era jovem e sonhava. Em silêncio, aguardava a chegada daquele que seria o pai dos seus filhos. De repente, numa noite de festa, ela o viu. Ele se debruçava absorto, olhos fechados, dedilhando seu bandoneón, do qual extraía melodias de tangos e boleros que embalavam o baile. Numa faísca vital, seus olhares se cruzaram. Quando ele a tirou para dançar, ela teve certeza de que era “ele”. No dia seguinte, nem a frenética algazarra de seus irmãos menores a tirava do seu devaneio: “Vou casar com aquele moreno”. Devagar, ponto a ponto, ela costurava seu destino.

E foi assim que ela conheceu e se enamorou daquele que seria o seu companheiro, marido, pai de seus filhos e, depois de ter abandonado muito cedo esse mundo, seu eterno amor.





Ouça um dos tangos que ele costumava tocar ao bandoneón:
http://www.truveo.com/Mano-a-Mano/id/3254517852



Ouça um dos boleros preferidos, que ela gostava de dançar com o seu “Amore Mio”:
http://www.youtube.com/watch?v=gPRESlT4Ccg


Querida, amada mamãe, que finalmente descansa. Que finalmente entrou para a mesma dimensão do seu “Amore Mio”:

“Feliz Dia das Mães, das Avós e das Bisavós”!

Silencio en la noche...

(Clique "play" no símbolo de som)
http://www.esnips.com/doc/68984d45-0a4b-4903-9a83-f08bcbd9d5dd/imagenes-de-GARDEL-cantando-el-tango-silencio

domingo, 26 de abril de 2009

14. Seus Ditos

Sempre pensei que a mãe tinha um saboroso vocabulário, muito dela, onde se percebia a forte influência da origem portuguesa, modificada pelo ambiente do novo mundo que evoluiu até o começo do século XX, quando ela nasceu (1922). Quando ela ficou seriamente doente, tive certeza de que precisava fazer alguma coisa para preservar um pouco do seu vocabulário, ao qual nós, filhos, estávamos tão acostumados que nem nos parecia tão único e original como efetivamente era. Enquanto a velávamos em sua agonia final, filhos e netos, lembrávamos com emoção de seus ditos, e eu os ia registrando no computador. Seguem alguns deles (o arquivo-fonte é grande e permanece aberto a colaborações).

Visão e Determinação
Querer é poder.
O saber não ocupa lugar.
O estudo em primeiro em primeiro lugar.
O que vale ser feito vale ser bem feito.
Não deixe para depois o que pode fazer hoje.

Precaução e Sabedoria
O seguro morreu de velho (sobre a importância de medidas de precaução em geral).
Melhor prevenir do que remediar.
A dor ensina a gemer.
De grão em grão a galinha enche o papo (sobre a importância de economizar).
Consultar o travesseiro (ponderar bem antes de uma decisão importante).
Dos males o menor (avaliando/priorizando riscos).
Caiu a sopa no mel (era bem isso que se estava precisando, que faltava, etc).
É melhor ficar com um pouco de fome do que comer demais.
Tô me auscultando (para ver se podia comer mais ou se era hora de parar).

Sem Papas na Língua
Eu falar e um cachorro acuar lá fora, vocês ouvem mais o cachorro.
Vai lamber sabão! (quando contrariada, discordando do interlocutor).
Mas isso é dor guaraína (sinônimo de inveja).
É muito posuda/o (para definir alguém arrogante).
Me olhou dos pés à cabeça.
Quem muito se abaixa o cu aparece.
Quem gosta de mim sou eu mesma.
Rasgando seda (sobre alguém que se comporta com muito tato e cerimônia).
É papa fina (para definir alguém diferenciado, de classe).
Uma negação (sobre alguém sem dotes para uma determinada atividade).
Puta merda! (exclamação usada com diferentes significados, desde reprovação até aprovação)
Puro farol (sobre alguém que promete fazer mundos e fundos e não faz nada).
Não adianta tapar o sol com a peneira (não adianta disfarçar).
Tá na cara (variante do acima).

Saborosamente Portuguesa
Do tempo do epa (para definir algo muito antigo).
Contando ninguém acredita.
Contando periga ser verdade.
De repente, não mais que de repente (quando começava a contar uma das suas histórias ou casos).
Não tinha onde cair morto (sobre alguém muito pobre).
Do bom e do melhor.
Tudo do bom e do melhor.
Uma finesse (mesmo que acima).
Não é mais grosso por falta de espaço (antônimo do acima).
É um céu aberto (algo muito bom, confortável e seguro).
Comeu a morrer.
Tem um bucho de avestruz.
Visita de médico (reclamando de uma visita muito curtinha).

Firme Autoridade
Vai lavar as mãos (para o Darcy, já adulto, antes de sentar à mesa).
Vão lavando as mãos e sentando na mesa que a comida já está pronta.
Bate essa merengada (para as filhas, ajudando-a na cozinha).
Vai tirando os alinhavos (idem, ajudando-a nas costuras).
É um pé lá e outro cá (para os filhos não se demorarem, quando lhes atribuía uma incumbência fora de casa).

Senso Estético, Esmero e Corujice
Linda, maravilhosa.
Linda de morrer.
Essa comida vai me trazer saúde e elegância.
Tá uma dor (sobre algo desajeitado, principalmente uma roupa).
Que dor! (idem)
Escroncha! (idem)
Uma escronchidão!
Cabelo de Dona Xepa.
Onde se viu, se deixar engordar daquele jeito.
Desleixada/o.
Um pão (para os candidatos a namorado das filhas/netas).
Um pãozinho (idem, só que mais novinho).
As mais bem vestidas (“minhas filhas”, com vestidos esmeradamente confeccionados por ela).
Estava entre as dez mais (sobre alguém que estava muito elegante numa festa).
Altura de miss.
Porte de miss.
Porte de rainha.
Se te chamarem de espicho, chama elas de baleia (para a filha Deolinda, que era a mais alta da classe, quando recebia apelidos por isso).
Corpinho de guria (mulher madura em boa forma física – para as filhas).

Super-ligada à Família
Mamãe, papai e os 3 filhinhos (por muito tempo, até o Luiz, o “quarto filhinho”, nascer, quando ela tinha 44 anos).
A minha norinha (a Tati do Luiz).
O piazinho (o neto Alexandre).
A piazinha (a neta Ana Carla).
Meus quatro filhos são formados (cheia de orgulho e sem falsa modéstia).
Nota dez.
A/o primeira/o da classe.

Hábitos e Gostos
As minhas poupancinhas.
Joguei uma dobradinha na mega sena.
Espera aí que tá na hora da previsão do tempo no Cucirá de Araújo.
A sambiqueira (a melhor parte da galinha, seu pedaço preferido).
Morcela com farinha de mandioca e açúcar no café da manhã (outro dos seus pratos favoritos).

As Novelas: Um Capítulo à Parte
Os atores da Globo são meus amigos.
Esse capítulo é muito importante (todos eram).
Grava a novela pra mim porque tá numa parte muito importante.
A novela está muito ruim mas eu tô assistindo só prá ver até onde vai a maldade dos personagens.
Presta bem atenção para me contar depois (para a amiga e vizinha, Dona Hilda).

Sempre Muito Precisa
Eu tô contando o tempo (caminhando sem parar nem olhar para os lados, seguindo à risca as recomendações do seu cardiologista: 20 minutos, nem mais nem menos).
Acordei aproximadamente às 7 e 13.

Otimista, Bola pra Frente
Vai passar.
Já está passando.
Já passou.
Oferece por amor de Jesus.
É leite derramado (não adianta lamentar, quando algo não pode ser mudado).
Vamos em paz e que Deus nos acompanhe.
Se Deus quiser.
Deus nos abençoe.
Durmamos bem.
Durmamos com Deus.
Se libertou (sobre alguém que estava muito doente e morreu).

Conselhos às Filhas
Fazer comida pro maridinho.
Se arrumar pro maridinho.
Eu nunca disse não pro Laurindo.
Não tá aqui quem falou (conciliatória, não querendo polemizar).
Melhor ser querida que aborrecida.

Impagável Sabedoria
A Edite, minha prima, dizia: “Eu sou só filha de Maria, não sou de Deus porque não mereço.”
E eu dizia: “É filha de Deus, sim senhora, e pára com essa bobagem.”

quarta-feira, 8 de abril de 2009

15. Seus causos e histórias

"Oi, meus queridos! Desejo uma Feliz Páscoa..."


Novamente, o acaso a nos pregar essas estranhas peças!


Dessa vez aconteceu com o Gindri, quando estava remexendo em documentos antigos e encontrou o bilhetinho abaixo.


A época foi 1994, ano anterior à ida do Chico a Porto Alegre, para estudar e morar no apartamento da vó Zilda.


A cronologia dos fatos:
31/03/1994 - data do bilhetinho
07/04/2009 - data que o Gindri o encontrou
12/04/2009 - Páscoa de 2009


Feliz Páscoa a todos!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

13. Os diferentes “convívios” junto aos filhos nas suas visitas familiares


Hoje, a minha sogra estaria fazendo 76 anos, se ainda estivesse entre nós. Então eu pego carona aqui para homenageá-la:

Seja feliz, D. Nair!

Quem não lembra da alegria contagiante e dos seus irresistíveis doces caramelados nas nossas celebrações?


Aniversário lembra festa; das festas da Mãe é que vou falar. Em geral não eram para festejar aniversários, lembro mais das de Natal e Reveillón. Muitas delas compartilhadas com as famílias dos genros e noras.
Em ocasiões especiais, a preparação minuciosa dos alimentos, a fantasia do requinte e as guloseimas faziam lembrar "A Festa de Babette".
Sozinha, com grande antecedência, preparava os quitutes e os conservava no freezer. Isso acontecia especialmente quando sabia que algum filho que morava longe estava por chegar; iria reunir sua "querida descendência". Com uma mistura de empenho e carinho, fazia tudo antes para, assim, poder "curtir bem a visita". Claro que em tais ocasiões não poderia faltar a Torta de Nozes. E se algum filho faltasse ao evento, podia contar que seu pedaço de torta estaria religiosamente reservado no freezer para ele.

Adorava preparar uma mesa com esmero, usando sua bateria de cristais e a melhor coberta de mesa. E não dispensava uma bela foto que guardasse para sempre tão perfeita produção.
Depois, era só alegria.
Que saudades! Que saudades...

terça-feira, 24 de março de 2009

9. A educação dos filhos

Ouça a música:
http://www.youtube.com/watch?v=GGNLLJz4Ajw&feature=related

Feliz aniversário, mamãe!

“Cada vez que eu digo adeus, eu morro um pouco...”

Como na canção, uma parte de mim também morreu ao dizer adeus à minha mãe. Nunca mais... A ausência física é uma dor que não tem cura. Quase sinto seu perfume, o suave toque da sua mão, seu sorriso, sua voz...


Ela está constantemente comigo, em inúmeros detalhes do dia-a-dia, nos meus pensamentos, nas minhas palavras, no meu jeito de ser...


Ela me abraça todos os dias quando me visto com uma das inúmeras roupas que confeccionou para mim ao longo da vida, e outras que me presenteou - guardo-as todas e as uso com veneração.

Era uma mulher elegante e com apurado senso estético, que me ensinou muitas coisas... “Na dúvida, tire” (para evitar o excesso de acessórios, jóias, etc.)

Caprichava nas fotos: “para a posteridade”, “para a minha querida descendência”. Reconheço-a em mim de tantas formas, tanto dela ficou em mim.


“O que vale ser feito, vale ser bem feito.” A busca da perfeição me acompanha desde pequena.


Também aprendi com ela a amar a vida, a degustar os pequenos prazeres do dia-a-dia, a me maravilhar com a natureza contruída por Deus ou aprimorada pelo homem.





Todo o ano, no meu aniversário, eu a felicitava: “Feliz aniversário, mamãe!” Afinal, sempre pensei que as mães também, e especialmente elas, merecem os parabéns quando os filhos fazem aniversário.

“Feliz aniversário, mamãe! De sua filha querida,
Deo

domingo, 22 de março de 2009

18. Suas idéias, política, paixão e credos

Queridos,

Queria compartilhar mais uma manifestação da força do legado da Maria Zilda, que se estende além da morte e além das fronteiras. Enviei um e-mail a colegas e amigos agradecendo as manifestações de apoio quando do falecimento, que incluía o trecho abaixo:

“My mother was a strong and visionary woman who believed that education was one of the most important things in life and made every effort to have her four children going to College, despite my family’s limited resources. She expanded her vision of better education to support her grandchildren, other relatives, friends and many others whose lives she touched. Consistent with that vision, she specified in her will that her body should be donated to the science. I was blessed for having her as my mother and feel very proud of all she was and all she did during her life.”

Após isso, algumas pessoas manifestaram que ficaram sensibilizadas pelo que escrevi sobre a minha mãe. Uma delas, em especial, me comoveu profundamente. Disse que tinha um agradecimento a fazer: por causa do exemplo da mãe, ela havia decidido que também ia doar seu corpo para a ciência. Nunca tinha ouvido nada semelhante aqui nos Estados Unidos mas tinha concluído que era um gesto que fazia todo sentido. Além disso, havia falado sobre isso para a sua mãe, que estava gravemente enferma, e sua mãe estava buscando os meios legais para também doar seu corpo para a ciência. “She is teaching us”, disse. Fiquei extremamente comovida. Nossa visionária de São Sepé ensinando e inspirando pessoas no longínquo Estados Unidos a seguir seu exemplo! E ela que nem falava inglês...

Recentemente, a mãe da minha colega (Tammi) faleceu. A nota abaixo foi divulgada entre colegas e amigos:

“Ms. Porter donated her body to Indiana University School of Medicine so there will be no funeral service. In lieu of flowers, Tammi asked that a donation be made to Visiting Nurse Hospice, POB 3487, Evansville IN, 47734.”

A força de um exemplo genuíno não encontra barreiras! Fico comovida e orgulhosa da força do exemplo da minha mãe.

Um abraço carinhoso a todos,
Deolinda

sexta-feira, 20 de março de 2009

21. O crescimento do relacionamento dos filhos e da descendência no desafio final

Queridos,

Coloco aqui a carta que escrevi no aeroporto de Porto Alegre, prestes a voltar para São Paulo, poucos dias antes da vó Zilda falecer.

Relendo a carta agora, após algum tempo, tive a certeza de que a vó foi em paz e que continua entre nós, com muito amor. Uma evidência disso é que semana passada acordei no meio da noite (3:30h da madrugada, aproximadamente) sentindo sua presença. Foi muito estranho e inesperado e, ao mesmo tempo, muuuito bom. Ela se libertou e estará conosco sempre, em forma de luz e energia.

Beijos,
Ana Carla

Minha avó

Pra onde você vai, minha avozinha querida?


O que ainda te prende aqui nessa dimensão terrena? Todos os teus filhos estão em paz, todos os teus netos seguem seu caminho. Você deixou um belíssimo legado.


Vai em paz, minha avozinha querida, que aqui contaremos aos nossos filhos (teus bisnetos) e nossos netos (teus tataranetos) da brava lutadora que tu fostes em vida. Da pessoa sempre positiva e otimista que marcou tua pessoa. Do carinho. De como não podemos perder esse amor genuíno, incondicional, amor que não esperava nada em troca.


Da avó, colona de São Sepé do Rio Grande do Sul, que fez questão que todos os filhos estudassem. Que propagou isso aos ventos e não só também os netos o fizeram, mas todos aqueles que a rodeavam. Que tiveram a honra de escutar tuas lições de vida.


Tudo vai ficar bem, minha avozinha querida.


Você vai encontrar o meu avô? É isto que te espera? Você estará nos esperando Lá, em algum lugar, quando chegar a nossa vez?


Como será quando chegar a nossa vez?


Você voltará no corpo de uma menina, assim como você sempre contava que o meu avô voltou nos olhos e no sorriso maroto daquele menininho do ônibus em Porto Alegre?


Vai em paz, minha avozinha amada, descanse. Você lutou muito nesses 86 anos. Você venceu muitas guerras. Uma guerreira. Uma mulher destemida que deixou seus genes e suas histórias na “querida descendência”. Uma mente livre e questionadora que ajudou o mundo a se libertar de muitas amarras terrenas.


Vou contar de ti para meus filhos, avozinha querida. Vou falar de quem tu eras e quais as tuas histórias.


Vou contar dos lindos vestidos de cinderela. Da “altura de miss”. Da indescritível torta de nozes. De como ficava feliz e se orgulhava ao mostrar as fotos dos filhos e netos, de sangue e de coração. “Tem que estar bonita nas fotos para a posteridade...”. Vou contar da tua garra ao aprender a usar a internet aos quase 80 anos de idade. Do mantra sempre positivo antes de dormir. “Paz, Saúde, Amor...”


Descanse em paz e junto ao Deus que tu escolhestes, minha avozinha querida.


Aqui na Terra todos os teus filhos e netos te amam muito. E isso permanece. Para sempre.


Sentiremos saudades, mas a sua batalha já foi vencida com louvor.


Junte-se a seus antecedentes. Uma hora nos encontraremos novamente. Tenho certeza.


E te guardarei junto a mim. Ao lado do meu coração.


Todos te amamos muito, minha avozinha.


Vá em paz. Se liberte.

domingo, 15 de março de 2009

15. Seus causos e histórias



Hoje, a Lucy está de aniversário!


...e este post é para contar o estranho acontecimento ocorrido dias atrás.


A Lucy estava procurando insistentemente uma receita de cassata para seu aniversário quando encontrou, num daqueles cantinhos escondidos recheados de tesouros, um bilhete antigo da Maria Zilda.

Este bilhete foi enviado na época em que a Lucy, Gindri e filhos estavam morando no Amapá, no extremo norte do Brasil.

O texto casualmente era para parabenizar a Lucy pelo aniversário, a exatos 20 anos atrás!


A cronologia dos fatos:
12/03/1989 - data do bilhetinho
11/03/2009 - data que a Lucy o encontrou
15/03/2009 - aniversário da Lucy


O conteúdo do bilhete nos emocionou profundamente pela enigmática atualidade do texto. Veja o original em frente e verso:



Parabéns pelo aniversário, maninha!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

20. O desafio existencial final - a doença que a levou

A última laranja
A última laranja de umbigo safra 2008 do pomar do Gindri e da Lucy cruzou a fronteira Uruguai-Brasil com uma nobre missão.
Laranja era a fruta preferida da Mãe.
Já há mais de mês com uma dieta via sonda naso-gástrica, nem água lhe era permitida via oral. Oxigênio também lhe estava sendo ministrado. Ela verbalizando o mínimo.
E a laranja no frigobar do hospital aguardando o momento oportuno. Primeiro tinham que chegar todos os filhos e netos.
A última que chegou, de bem longe, foi a Deolinda numa quinta-feira. Muitas e intensas emoções se sucederam.
Passado o alvoroço inicial, no final da tarde, com a concordância da filha médica recém chegada, coloquei em prática o plano.
Mostrando aquela enorme laranja à Mãe, comentei que tinha vindo do nosso pomar e lhe perguntei se queria provar. Ela com voz firme, "QUERO". O plano era tocar-lhe a língua com um naco de laranja para que apenas sentisse o delicioso sabor. Qual não foi a surpresa de todos quando ela se agarrou àquele pedaço de laranja como uma criança a um pirulito. Com as poucas forças que lhe restavam, mastigou aquele pedaço como um dos últimos que era. E pediu mais, um, dois. Quando notamos seu cansaço tratamos de resgatar o bagaço que havia ficado na boca e que, ali, representava um perigo.
Ah, no meio da festa entra o pessoal de enfermagem, e eu me apresso "tamo fazendo arte, mas não briguem conosco". E elas sorrindo comentam sobre o delicioso cheiro que inundava o quarto. Ufa, dessa escapamos!
Tudo isso aconteceu 8 dias antes de sua partida.
Na foto, o que sobrou da derradeira laranja, o último prazer - dela, pelo sentido do gosto; nosso, por vê-la degustar seu último banquete.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

17. Suas habilidades (costura, cozinha, etc..)


A Torta de Nozes

Ao percebermos que a receita da Torta de Nozes poderia se perder para sempre, e por tratar-se da torta mais gostosa do mundo, foi realizado um curso, no dia 24/6/2007, ministrado pela Maria Zilda para o filho Luiz e a netinha Larissa.


A receita está salva!

...percebam as famosas caretas de concentração: