A última laranja de umbigo safra 2008 do pomar do Gindri e da Lucy cruzou a fronteira Uruguai-Brasil com uma nobre missão.
Laranja era a fruta preferida da Mãe.
Já há mais de mês com uma dieta via sonda naso-gástrica, nem água lhe era permitida via oral. Oxigênio também lhe estava sendo ministrado. Ela verbalizando o mínimo.
E a laranja no frigobar do hospital aguardando o momento oportuno. Primeiro tinham que chegar todos os filhos e netos.
A última que chegou, de bem longe, foi a Deolinda numa quinta-feira. Muitas e intensas emoções se sucederam.
Passado o alvoroço inicial, no final da tarde, com a concordância da filha médica recém chegada, coloquei em prática o plano.
Mostrando aquela enorme laranja à Mãe, comentei que tinha vindo do nosso pomar e lhe perguntei se queria provar. Ela com voz firme, "QUERO". O plano era tocar-lhe a língua com um naco de laranja para que apenas sentisse o delicioso sabor. Qual não foi a surpresa de todos quando ela se agarrou àquele pedaço de laranja como uma criança a um pirulito. Com as poucas forças que lhe restavam, mastigou aquele pedaço como um dos últimos que era. E pediu mais, um, dois. Quando notamos seu cansaço tratamos de resgatar o bagaço que havia ficado na boca e que, ali, representava um perigo.
Ah, no meio da festa entra o pessoal de enfermagem, e eu me apresso "tamo fazendo arte, mas não briguem conosco". E elas sorrindo comentam sobre o delicioso cheiro que inundava o quarto. Ufa, dessa escapamos!
Tudo isso aconteceu 8 dias antes de sua partida.
Na foto, o que sobrou da derradeira laranja, o último prazer - dela, pelo sentido do gosto; nosso, por vê-la degustar seu último banquete.
